Bitucas

Começou a chuva. Dentro da roupa molhada alguém cansado de correr. Na sarjeta a água desce urgente formando um arco. As árvores já se despenteiam de folhas. Guarda-chuva vira garfo. Lá vai cachorro tremer de medo de raio. As bitucas boiam num balé besta. Burro foi Vitinho que deixou tênis de marca no muro. Um ficou e virou piscina de mosquito, o outro o vento deu pro catador, que vai andar pé sim, pé não calçando Adidas. O catador carrega feito formiga um pedacinho da cidade, trabalha muito mas respeita domingo que família é a coisa mais importante. Às vezes. Diante do diacho da chuvarada dá tempo de fumar um. Bola de boa sem pressa e manda beijo pros vultos atrás dos vidros temperados dos carros. Como só tem malcriado nessa budega, ninguém devolve a elegância. Na fresta de uma janela, vem lá um moça fungando um café de xícara gorda, faz schrrl ao encostar a boca e senta de banda de bunda no sofá pra ler um livro. O catador estica o pé sem capricho pras gotas pesadas e vê o calombo de inchaço escorrer poluição pra fora. Guarda um pouco do fininho pra de noite e fica dando bola pros riscos molhados estourando na luz do poste, e o som da tv que vaza das paredes e o cheiro de pão da tarde. Inventou mais ou menos ali um gosto que combinava com as coisas que sentia e mascou o riso sozinho. Meia coisa nenhuma de tempo depois, o céu se cansou de espremer nuvem e veio um sol preguiçoso de brilhar.

Carnes

A carne da minha carne era trazida de Tumbeiro.

O transporte da carne vinha com moscas, seguida por tubarões do mar e guiada por tubarões da terra.

Era permitido vinagre para a limpeza.

As carnes menores ficavam por cima. As que estragavam eram jogadas fora diminuindo o peso da carga.

A tumba partia de um cemitério para o outro, viajando muitos dias sob a morte salgada.

De cada 10 quilos de carne, 4 ou 5 chegavam aos tubarões de negócios. Esses que tinham os dentes mais afiados, rasgavam até as peças mais duras.

Para espanto geral, certas carnes ainda debatiam-se em convulsão, como que em desentendimento com a morte.

Passado não mais que alguns séculos o transporte deixou de se tornar lucrativo, visto que as carnes ficavam cada vez mais duras e convulsionavam cada vez com mais violência, como se reagissem a tambores de guerra.

Hoje essa que transporto dentro de uma pele nobre ainda espanta moscas e tubarões.

Enquanto longe dos meus olhos o transporte de carnes continua ativo, dessa vez com tumbas cheias de ar.

 

 

Ioiô

Na hora do almoço eu me sentava num dos bancos do Cemitério da Consolação. É um lugar bonito, calmo, parecia que o ruído de fora respeitava o luto e desviava dali. Silêncio.

E então teve aquele dia que senti a aproximação de alguma coisa.

Parecia uma velha mas não sei dizer, quando tentava olhar no seu rosto meu corpo doía. Assim que se sentou já foi dizendo:

– Por favor, não me descreva no futuro como “a morte em pessoa”.

Era a morte em pessoa.

Eu não vi nenhuma credencial mas na hora entendi, na verdade senti, que era a morte em pessoa. Olhei meio de lado e ela estava usando jeans e uma blusa de moletom preta. Isso abalou um pouco a minha fé.

– Você é a Morte mesmo?
– Bom, é um pouco limitadora essa definição mas para facilitar sim. Sou a morte, o evento, a entidade e a presença.
– Ai Jesus.
– Mas você pode me chamar de Elisa.
– Aline?
– Elisa. Elisa.
– Elisa?
– Hoje é Elisa. Fico trocando de nome todo dia. Mas honestamente tanto faz.
– Elisa… eu vou morrer agora?
– Tá vendo? Por isso não importa. Ninguém quer puxar um assunto diferente. Ninguém me pergunta como é que eu tô. O que eu acho desse dia maravilhoso. É só, “ai será que eu tô morrendo”, “não me leva agora por favor”, “deixa eu me despedir”. Haja paciência.
– … desculpe.
– Você não vai morrer agora. Não funciona assim, ok? E já sei o que você vai perguntar agora.
– O que… você está achando desse dia maravilhoso?
– Não precisa fazer essa média. Pode perguntar de verdade o que você quer saber.
– Você sabe, que dizer, não precisa me dizer, mas, você sabe, assim, quando que eu-
– Que dia você vai morrer?
– É.
– Honestamente?
– Sim…
– De verdade?
– Pode falar.
– Eu não sei. Eu não conto o tempo no calendário.
– Você não sabe?
– Haha. Vamos lá. Que dia é hoje, menino?
– Quatro de outubro de dois mil e onze.
– É?
– É.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Então prove.
– Oi?
– Prove que hoje é o dia quatro de outubro de dois mil e onze.
– Ué.
– Pois não?
– Eu não tenho como provar mas está no calendário.
– E o que é um calendário?
– É um papel que te mostra… que dia é…
– E se eu não concordar com o papel?
– Não importa, todo mundo concorda, é o mundo organizado. Sem ele não tem como marcar coisas e se encontrar com as pessoas.
– Eu me encontrei com você sem ele, não?
– É diferente. Foi um encontro casual.
– Como você tem tanta certeza?
– Puts. Eu não tô morrendo mesmo não, né?
A morte riu de mim.
– Não. Mas olha isso que vocês chamam de dias e anos é só uma das muitas formas de marcar o que vocês chamam de tempo. No meu trabalho eu não preciso usar isso.
– E como você sabe que chegou a hora de buscar alguém?
– Eu olho no meu relógio.
– Ah então você usa calendário…
– É um relógio diferente. Você quer ver?
– Eu quero sim.
Elisa colocou a mão no bolso do moletom preto e tirou um objeto que se parecia muito mesmo com um ioiô.
– Esse seu relógio parece muito com ioiô.
– É um ioiô…
Apertou o dedo no laço do barbante.
-… mas também é um relógio. Eu uso assim.
Ela joga o ioiô, ele desce e depois volta para sua mão.
– Prontinho. É assim que eu conto o tempo de vida de alguém.
– Espera, espera, espera, como assim?
– Vou repetir devagar, preste atenção. Vocês começam aqui na minha mão. Depois descem. Aí começam a voltar. E acabam na minha mão de novo.
– Só isso?
– Bom. De vez em quando eu arrisco umas manobras. Mas sempre terminam na minha mão.
– Nossa… então cada volta do ioiô é tipo um ano de vida.
– Não tenta racionalizar.
– É. Hm. É… então a morte não é infalível afinal de contas.
– Como é que é, menino?
– Sim, porque, porque… se você errar na hora de jogar o ioiô, ele não… volta pra sua mão.
– O problema é que eu nunca erro.
– Nunquinha?
– Não tem highlanders por aí. Te garanto. Joguei esse ioiô bilhões de vezes.
– Bilhões? Cacete.
– Por isso que eu não concordo muito com o calendário cristão. Dá uma impressão muito equivocada sobre quanto tempo faz que as coisas acontecem por aqui.
– Faz sentido… Elisa, eu tô onde nessa jogada assim… eu ainda tô descendo, ainda tô lá embaixo, ou já estou subindo?
– Querido, eu não tenho como te dizer se você tem muito ou pouco tempo. Tempo é uma interpretação. Você pode achar que tem pouco ou muito tempo dependendo da medição. Imagine se eu te dizer que você tem ainda, hipoteticamente, um milhão piscadas de olho antes de morrer. Você consideraria que é um número alto?
– Sim. Eu acho.
– Pois é só um pouco mais de um mês. Hipoteticamente.
– Caramba.
– E se eu te disser que te restam, hipoteticamente, 60 pedaços de torta holandesa, parece pouco?
– Mas pode significar mais uns 20 anos.
– Você pegou a ideia. Imagine quantos espirros, torções de pé, esquecimentos da chave de casa, idas ao cinema ou eclipses lunares te restam e cada uma dessas informações vai te fazer se sentir com muito ou com pouco tempo.
– É… você tem razão.
– Eu sei. Esse papo me deu fome. Vou sair daqui e pegar uma torta holandesa. Você quer ir comigo?
– Melhor deixar pra mais tarde…
A morte riu para mim.
– Elisa. Por que eu? Por que se sentar aqui do meu lado e conversar comigo?
– Eu passo a hora do almoço aqui também. É silencioso, né?
– Seu trabalho deve ser puxado.
– É, vocês precisam parar de dormir com celular do lado da cabeça e de comer miojo com salsicha.
– Eita.
– Bom, vou lá pra padaria terminar minha pausa. Foi bom conversar com você menino. Continua escrevendo viu. Geralmente eu apagaria totalmente essa lembrança da sua memória mas vou deixar um devaneio disso aparecer daqui um tempo, como um sonho ou imaginação, algo assim.
– Tá bem. Não sei o que dizer.
– Só não me introduza como “a morte em pessoa”, beleza? Estamos combinados?
– Estamos… você é meio doida, Elisa.
– Se vocês ao menos soubessem o que a loucura é. Bem, de qualquer forma, não sou eu que estou falando com um monte de galhos secos do meu lado.
Foi aí que eu consegui virar a cabeça e percebi que confundi um monte de galhos secos com a morte. Um ioiô enferrujado parecia ter se enroscado ali há muitos anos. Minha hora de almoço tinha praticamente terminado. A pessoa mais próxima varria folhas.

 

Esforço

Reparo por acaso nas crianças, como é impressionante o esforço da vida.

Por um tempo o movimento mais ousado do corpo é o da mão pequena agarrando um dedo gigante.

No metrô, as menores surgem embrulhadas em camadas de tricô.

Eu fico pensando em como é que uma coisa dessas algum dia poderia dar errado. Lá no meio os olhos procurando tudo. Minha vontade é dizer:

Espera essa vontade passar, ô você que tá aí dentro. Se incomode não. Quando você largar esse peito pode ser a última refeição saudável pelo resto da vida.

Depende da sua sorte.

Síria, Candelária, Ítalo e Príncipe George.

Quando abrirem esse pacote de expectativa quem vai surgir?

Esse negócio empacotado não sabe o que é internet ainda, um dia vai achar 10 mil fotos dele lá.

Com certeza o primeiro retrato é um contorno do ultrassom. A segunda é com a mãe cansada meio sorrindo, meio olhando com cara de “como é exatamente que isso cresceu dentro de mim?”

É moça, parece que os próximos dias serão meio doidos, o esforço da vida vai deixar bagunça, fluídos, resíduos, gastar o que tinha na poupança, se é que tem poupança, pai presente, prece no dia de febre, penico e pente fininho pra não machucar. Se é que tem pedido de desculpas algum dia por chegar 3 horas depois do combinado. Nem um telefonema, nem um piu. Todo mundo trazendo previsão e ninguém doando tempo. E tudo começa com o êxito da mão pequena agarrando um dedo gigante.

Depois vem um pé que não faz sentido nenhum que consiga parar em pé.

Com certeza o seres humanos foram projetados para ficar com as pernas pra cima, rolando de um lugar pro outro, só que a gente não entendeu.

O pé que a gente força se achata logo nos primeiros passos, que empenho, quanto tempo pra chegar do outro lado. Quanto cansaço. Depois vira outra coisa chata. Caminhar, agarrar, soltar fluídos e resíduos. Passado tanto esforço a gente cresce e descobre que é tudo mentira, o shampoo que não ardia, a lua de queijo.

Minha mãe que me deu a notícia.

Só que ela, esperta, avisou que a lua não é de queijo mas que eu teria que ir lá pra ter certeza.

Fiquei uma semana tentando ser astronauta e desisti, a lua era muito muito longe, bem além do outro lado da sala e não valia o esforço.

Medo de Perder o Cu

Há quem diga que quem tem cu, tem medo, inclusive o medo de perder o cu. Ter um cu é importante, no corpo ele pode ser a última saída. Ou a última entrada. Com o cu não tem conversa, é papo Reto. Imagine uma pessoa acorda e não sabe onde botou o cu? Aquela vontade matinal de cagar mas não sabe onde o cu está metido. Amor, você se lembra onde deixei meu cu ontem? Polícia do Cu, eu gostaria de informar um cu desaparecido! Mas talvez ele nem esteja em casa, talvez o cu caiu da bunda na rua, enquanto você lia alguma notícia. E alguém levou embora, seu cu encontrou um novo lar, virou imã de geladeira, ganhou um novo nome, fez depilação ou tranças, não se lembra mais de você_ou pior ainda. O cu permanece no chão esquecido, sendo comido por pombas-rola. E se ele não foi perdido e sim tomado? Sequestrado? Logo mais alguém liga e diz “Estamos com ele, quanto você pagaria para ter o seu cu de volta?” Fotos de cu coladas em postes “Perdeu-se um cu de estimação, paga-se recompensa”. E o fóbico da ausência de cu sempre anda pelos cantos, evitando distração.

Mau Agouro

Contra o concreto amarelado suas asas pretas pareciam um maldito buraco que rejeitava toda a luz da manhã.

O pão e o café já estavam servidos. As visitas bisbilhotavam. Sobre conversas repetitivas que reclamavam da saúde e outras preocupações.

Não vimos como ou quando aquilo entrou na casa. Como ocorre nesses casos, em algum momento percebe-se que a mariposa já está lá.

Mau agouro. Preta e indesejável.

As pessoas cochicharam em incomodo como se a coisa tivesse entendimento da palavra humana.

Imóvel um pouco abaixo da telha, sua presença propôs um desafio.

Matar ou expulsar, deixar ali era impensável. Quem dormiria em paz com aquela presença aterrorizante na parede?

Mau agouro. Preta e imprevisível.

Não morde. Não pica. Não envenena. Mas perturba. É necessário que alguém faça algo.

Logo um chinelo gira no ar e erra o alvo. Nada acontece, nem um susto. A apreensão continua.

Outro chinelo no ar. E outro. Um jornal desfolha em pleno vôo inútil. Uma bola rebate e acerta o vaso que quebra. Era barato, mas reforçou a ladainha sobre a iminência de tragédias.

Mau agouro. Preta e intocável.

Quando o nervosismo parecia em tempo de se tornar ridículo, estremeceu a casa diante da correria no instante em que aquela sombra, dona de si, vagou livre próxima ao teto.

Acuados no quintal, residentes e visitantes negociaram a perda do orgulho encenando humor. Marmanjos, mães e crianças agitadas se aborreceram ao notar que o tempo ia embora e nada passava pela janela.

Em busca do enfrentamento foi definida a excursão de retorno. Teve quem entrou de olhos fechados, teve quem se armou com uma vassoura.

Mau agouro. Preta e inalcançável.

Reviradas cortinas e calendários, verificadas paredes e teto, cantos e rachaduras observados, ninguém achava mais.

Sumiu assim como veio. Sem aviso ou explicação.

 E como nos domingos de costume, voltaram a bisbilhotar e cuspir borboletas ressacadas.

Pastel Comum

Noite, saída do metrô República, cada um por volta de seus 7, 8 anos,
travesseiro na mão – cabou o expediente –
escorregam pelo corrimão. Dão risada, não olham pra mim, não sou assunto agora.
Como eles ao longo do dia que passou
eu sou só uma coisa que passa,
subindo alguma hora eu dou uma dessas:

“esses moleques podem cair e se machucar”

com toda a autoridade de quem não se responsabiliza pelo prato de comida na mesa de ninguém.
Afinal de contas.
Pra todos os efeitos eu sou uma pessoa sensível que está por dentro de todas as demandas da sociedade.

Mas subo de dois em dois degraus porque se alguém morrer na minha frente vou ter que lidar com isso, prestar depoimento,
vai me atrasar pra eu chegar em casa abrir uma lata.

Os
moleques
escorree
e
e
e
e
gam
e
somem
dentro
da
garganta do metrô e vão parar em algum compartimento dentro da minha cabeça, onde guardo imagens que possam ajudar num momento de aflição,
(quando eu estiver me sentindo um completo inútil,
posso dizer a mim mesmo que sou sensível,
preocupado com acidentes em vias públicas.)

Esses dias, paguei um pastel especial prum tiozinho, ele andava eSquisItO
e todo mundo achou que ele estava bêbado, mas era fome, óbvio. Quando ele se aproximou e pediu alguma coisa esfregando a mão na barriga, circularmente,
esse compartimento da minha cabeça soltou um alerta de
“oba, mais uma oportunidade”, e que coisa,
perguntei pra ele qual recheio de pastel ele queria,
ele sorriu, ou fez uma careta e me pareceu um sorriso,
e respondeu

– O grande.
E desenhou no ar o tamanho.

Na hora que eu peço o especial ele já começa a chorar, mas não cai lágrima nenhuma, ficam os olhos-piscina. É engraçado no desenho animado mas pessoalmente é como ver um truque de mágica que você desconfortavelmente acha que é um truque mas não.
Me entregam o lanche e quando vou passar para o tiozinho, como bom político, entrego sorrindo (para mim mesmo no futuro, nos dias eu que estiver me sentindo um completo inútil) e ele pega como se fosse um bebê recém nascido-

a ideia cinematográfica que o faminto rasga a comida é desses mitos da arte, o faminto trata a comida como uma mais viva que ele próprio, observe aqueles que reviram os lixos dos condomínios, é um tipo de arqueologia, quem rasga comida somos nós, cães domesticados,

– e sai abraçando o pastel no peito e apontando pra cima, dizendo que deus é alguma coisa
– Grande
eu acho, talvez… até maior que o pastel especial.

Quando fui colocar isso no compartimento de auto-indulgência foi cuspido de volta. Acabou o espaço. Acumulei muita coisa lá. Começou a transbordar.
Saia pelos olhos, pelo nariz, pelos ouvidos. Fui tentando me salvar, tapar com as mãos, essa areia interna era tudo o que eu tinha, eu sou um corpo sem orgãos, um boneco de enchimento, agora furado, murchando.

***

Agora estou na Sé, os crentes falam sobre o Deus Maior Que o Pastel Especial, e organizam uma fila de sopa. Se eu for parar na rua, são os crentes que vão me salvar, coletivo vai me tirar uma foto e ganhar 10 mil curtidas, mas os crentes que vão me dar sopa. Quem conhece a cidade, sabe que peça está em cartaz, onde é espectador e onde é ator. Foco de luz no M. por favor.

M. não consegue mais pagar o aluguel, já não tem como fazer mercado, pega uma fila dessas todo dia como única refeição.

Pago uma cesta básica, esperançoso, mas é tarde demais. Agora nada mais fica dentro de mim, meu corpo expulsa toda essa areia de orgulho cínico, bom samaritano do textão, murchando murchando, olha a sua cidade, uma bando de sombras se alimentando de vaga-lumes, que fim terá isso, murchando,
porque me pagam, porque me salvaram, porque o Deus Maior Que o Pastel Especial me livrou da fila da sopa ou do travesseiro que escorrega na garganta de aço.

> Você pode pular a próxima parte e ir direto ao ponto em que eu escrevo ‘CONTINUAÇÃO’

As pessoas. Consigo ouvir a areia dentro de suas cabeças / primeiramente fora temer e segundamente é um pouco complicado de explicar / cada um que cuide da sua vida/ vou nessa onda, / sou desses que sabe fazer molotov mas não sabe onde fica a associação do bairro,// os anarquistas estão chegando, por favor sem máscaras feitas na china dessa vez/ ninguém pede permissão aos moradores de rua, nem licença// desculpem o transtorno estamos tentando consertar o país ou algum slogan desse tipo// tem um trans que mora na rua aqui perto, já vi ele dando umas 10 entrevistas,/ coletivos que querem dar visibilidade, programas da Band, jornal grátis/ ele continua vendendo halls pelos lados da Santa Cecília, ele é famoso mas aumentou a concorrência nos últimos 6 meses// E as pessoas ainda morrem de aids na rua embora ninguém mais fale sobre isso//

No centro de 3 em 3 minutos alguém vai te pedir comida, cigarro, pinga, ou atenção nem que seja dez centavos.

Algumas pessoas já perceberam que não estamos mais dando conta. Apesar de que na Fradique, essa rua cenográfica, vários restaurantes, não vi pedintes na porta, fantasmagoria social compreensível, todo mundo quer almoçar em paz, até os pedintes depois sentam num canto, na deles, no futuro moraremos em grandes praças de alimentação-hotel, ainda assim haverá isso.

Já o centrão.
O centro voltou a ser o centro, sem filtro. Não estamos mais dando conta. A lenta explosão da cidade começou, vocês estão vendo? É que estamos em ultra câmera-lenta mas olha ali, corpos que parecem no chão mas o asfalto está cedendo, quando perceberem que o mundo já acabou, vão tentar escalar aqueles prédios de jardim vertical no minhocão pra morrer num jardim próximo.

Até no apocalipse existirá a sorte de quem está no lugar certo.

> CONTINUAÇÃO.

Quando alguma coisa te fazer um furo e começar a sair toda essa areia, não se espante se começar a ouvir vozes fora da sua cabeça, não se espante se descobrir que todas as conversas que você teve na vida foi com você mesmo, não se espante se perder a rigidez dos músculos, se você ficar mole, meio ar, meio algum recheio, tipo um pastel comum de feira.

Pastel comum. Você não é porta-voz de periferia nenhuma.
Pastel comum. Você não dá visibilidade pra ninguém.
Pastel comum. Você não desconstrói a sociedade.
Pastel comum. Você vai durar um tempo, não muita coisa, e se tiver sorte, alguém dos olhos-piscina vai te adotar por uns segundos e você vai desaparecer para que alguém viva outro dia.

Ou

resistente, certo de que seu destino é ser – grande – você pode voltar a se re-encher. Cheio disso que não é alimento pra ninguém, seus braços voltarão a crescer, suas pernas, sua cabeça, toda essa confiança, toda essa areia.
É. É uma alternativa. Acho que dá.
Viver na cidade, comprimindo um deserto dentro do corpo.

Café

Conforme o tempo passa você vai vendo quem realmente é seu amigo, né. Geralmente é alguém que tá sempre ali sem te reivindicar nada, acolhedor e silencioso até. Daí, num desses dias cagados de sempre.. você pega esse amigo,
tira do pacote,
bota no coador,
depois joga água quente em cima e espera uns minutos.
Se quiser, adoça.
E prontinho.

Porra, eu amo café.

Eu nunca tive uma ideia estúpida tomando café. Já tive até tomando chá. Já fiz crediário nas lojas pernambucanas depois de tomar água. Mas café?
Claro que não cresci na vida a ponto de gerente de banco me oferecer café. O máximo foi amortecimento retroativo da dívida mas sem nem uma cremecraque pra acompanhar.

Tem gente que chega num emprego novo e olha no mapa do andar onde está localizado o saco mais importante pra puxar ou a senha do wi-fi. Eu procuro a maquina de café. Ou a garrafinha.
Se não tiver é um problema, vou ter que caçar, produtividade cai, é osso.

Eu fico imaginando mundos paralelos onde a internet não aconteceu. Mas café não. Minha imaginação não chega.

Quando eu penso em vida após a morte tem aquele dilema,
na infância eu tive umas aulas do antigo testamento com uma senhora testemunha de jeová.
Eu aceitei porque a senhora pediu com educação e porque o livro tinha cada uma ilustração bonita, pareciam cartas de magic algumas horas.
Todos os povos. Todo mundo feliz.
Os leão brincando com as crianças.
Flores. Roupa branca. Se tivesse um Temer lá renunciava com certeza.
Coisa bonita mesmo.
Mas aí você olha, olha, olha, as ilustrações do paraíso, da nova jerusalém ou coisa assim e aí se pergunta

– mas cadê o café?

Imagina, cê morre, e sabe-se lá com que tramoia ou generosidade divina consegue ainda ir parar no Céu.

Daí, anjo, canto, tudo de alegria e amor, revê parente, encontra o David Bowie correndo pelos campos verdejantes usando uma tanga jasmim e diz:
muito bom tudo isso estou amando parece que realmente foi vantajoso não ser cuzão com as pessoas e tal mas só para esclarecer um ponto porque nos livro as figura não tinha e acho bom para alinharmos as minhas expectativas aqui

– cadê o café?

E só sossega quando o querubim revelar que tem café infinito no esquema.

Diferente do álcool que é amigo naquelas né, é divertido e tal mas se ficar dando muita corda já viu, o café só se senta do seu lado e te acompanha, sejam 10 segundos ou meia-hora. Sem extravagância, tô falando de café mesmo. Sem excentricidade. Honesto.

O café é tão superior que, na boa, papo sério agora:
Você já tentou ver seu futuro na borra de café?

O que eu vou contar agora é uma coisa muito chocante.
Se preparem.
Principalmente os céticos.
Até me arrepiei.
Seguinte.
Dá atenção máxima nesse momento.
Primeiro você faz o café sem coar. E bota numa xícara.
Não é ex-pote de geleia não, é xícara.
Tem todo um negócio ritualístico, respeita.

Daí tem que ir bebendo o café e mentalizando sabe, com calma e tal.
Prestando atenção.
Golinhos curtos.
Deixa a língua curtir o negócio.
Sente o cheiro.
Aproveita.
Quando terminar de tomar você olha pra borra que ficou, com muito cuidado, pedindo uma revelação ou aconselhamento pro futuro.
Acreditando, sacou.

Eu fiz e sabe o que eu vi?

Sabe o que eu vi?

UMA BELA DE UMA MANCHA QUE NÃO ME LEMBROU ABSOLUTAMENTE NADA.

Fico até emocionado ao lembrar.

Tá doido.
Foi o melhor conselho que recebi na vida: nenhum.

Uma bela de uma mancha que não me lembrou absolutamente nada além de que teria mais item da louça pra lavar.

Qualquer outra bebida teria cedido aos meus apelos e me dado uma premonição qualquer que me causaria enorme ansiedade.

Porra, eu amo café.

Por causa disso.
Porque ele não é nada. Ele não é “uma experiência inovadora”. Tem quem que ostente tudo até uma cafeteira. Mas se você trocar a xícara e botar num copo descartável qualquer, café é café. Daquele de 1,50 ao mais nobre, ele mantém a mesma honestidade.

As pessoas estouram champanhe e enchem a cara nos dias de vitória, mas em velórios é o café que está lá.

Nos ocupando quando não temos mais o que fazer nem dizer pra ninguém.

E é por isso que todos os dias precisamos dele.

27 peixes

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Essa noite não consegui dormir lembrando do dia em que matei o Cleiton.

Tinha uma chácara na vila do lado. Época de férias, diziam ter ali um cuidador que dava tiro de chumbinho se pegasse um invasor.

Eu entrei no lugar já com o objetivo definido, ir ao riacho. Queria é ver os sapos, mas como toda criança desatinada, acabei voltando pra casa com 27 peixinhos.

Sim, aos 9 anos eu já era meio estúpido.

Minha mãe só olhou pra mim e sabe, deu aquele suspiro que as mães dão pro filho caçula. Suspiro já passei por isso com seus três irmãos. Suspiro chegamos na idade em que ele vai começar a trazer bichos e coisas da rua.

Não falou nada além de: você vai comprar um aquário e comida pra peixe?

Olha, claro que eu sabia que eles não deveriam viver dentro de um sacola de supermercado e já tinha pensado em todos esses detalhes.

Enchi um balde de água e despejei os novos inquilinos ali.

Não sabia exatamente o que seria – comida de peixe – mas tive um palpite. Migalhas de pão.

Se ratos, baratas e pombas comem.

Perfeito. 27 peixinhos sobrevivendo num ecossistema perfeitamente sustentável. Um balde com uma fina camada de migalhas de pão em cima.

Minha mãe olhou pro balde, olhou pra mim, pro balde e pra mim de novo. E começou a lavar a louça.

Nem tinha chegado nas panelas quando o primeiro peixe pulou pra fora.
E ficou lá estrebuchando.

Entrei em pânico imediatamente. Queria salvar o peixe burro que caiu fora da água, mas tinha agonia de o pegar nas mãos e saí correndo. Mãe o que eu faço? Bota ele de volta na água ué.

Ué.

Eu voltei pra perto enquanto ele dava os últimos espasmos. Fechei o olho, esperei terminar e o varri.

Ok. Ainda temos 26 peixes que não são tão burros.

Ok. Outros dois peixes acabam de pular para fora do balde. Peixes são idiotas, mãe?

Ué.

E assim, outro e mais outro. E corro. Alguns só emborgavam de ponta-cabeça. Outros pulavam até cair no chão de casa. Eu fechava os olhos e depois varria.

Ué.

Calma Ricardo, você já tem 9 anos. Pensa. Pensa. Sim, claro! É o balde.

Ufa, ainda bem que sou inteligente.

Peguei um outro balde vazio. Minha mãe olhou pra mim, pro balde vazio, pra mim e pro balde vazio de novo. E começou a enxugar a louça.

Minha mãe, além de mãe, é mineira. O que significa que de vez em quando a forma como ela ensina as coisas pode ser confundida com frieza ou maldade.

Na troca de balde eu perco mais 3 peixes.

Fiquem aí peixes idiotas. Fiquem aí. Fiquem, por favor.
Estou pedindo, parem. Tem pão, tem, tem… pão. Parem.

Eles não pararam.

Não mereciam isso. Não mereciam estar ribeirando à toa e irem parar num balde sem comida e oxigênio.

Tão logo, eu jogava no lixo o penúltimo e voltava para contemplar no balde 2 o solitário peixe restante.

Já tinha me dado por vencido. Em alguns instantes ele iria morrer.

Provavelmente já experimentando a culpa de um serial killer acidental eu decidi que aquele último teria um nome.

E seria Cleiton.

Não há nenhum motivo para esse nome. É Cleiton porque olhei pra ele e me pareceu que deveria ser chamado assim. Estava muito aflito, não tinha tempo de ponderar a respeito.

Aos 9 anos eu já era estúpido e disse baixinho: eu te amo, Cleiton.

Ele pulou fora do balde como quem diz

– Tarde demais, s e u b a b a c a.

E se estrebuchou. Dessa vez eu assisti. Se estrebuchou e aquietou.

Varri.

Mas essa experiência ficou na minha cabeça por anos e comecei a gerar umas interpretações sobre o ocorrido.

Primeiro pensei:

já pensou se deus na verdade é meio que um menino de 9 anos, e nós somos uns peixes que ele botou nesse balde chamado universo sem termos a menor possibilidade de sobrevivência, e as estrelas e tudo o mais são migalhas de pão que a gente não come, e a mãe mineira de deus olha pra ele resignada como quem vai logo avisando que não vai arrumar a bagunça?

Daí na adolescência eu pensei:

É uma metáfora sobre a liberdade e sobre a gente pegar essas coisas livres e honestas da vida, que estão bem lá no riacho delas e tentar obrigá-las a sobreviver num balde, nosso balde, e demora muito tempo pra entendermos que não se salva os peixes trocando o recipiente?

E por último foi o pensamento mais esquisito:

Naquela época mesmo eu soube sobre a memória de curta-duração dos peixinhos e aí ficava imaginando como para eles a vida tem várias versões. É como nascer de novo em lugares aleatórios todo o tempo. Daí me arrepiou pensar na última versão da memória do Cleiton.

Talvez ele tenha acordado já fora do balde, se estrebuchando. Provavelmente achando a vida demasiadamente desconfortável e cruel. Ou também, mesmo sem saber o que é, parecia ter alguma coisa muito importante dentro daquele balde que ele gostaria de experimentar.

A pior parte é nem sequer ser o balde, é ser o riacho, uma coisa da qual não se lembra mais.

E se o nosso corpo tem saudades de coisas que a nossa mente já esqueceu?

Foi depois disso que desisti de dormir.